Crônica: Aprender ou “desaprender”?

Conforme  a gente vai crescendo, vai aprendendo milhões de coisas todos os dias. Os bebês aprendem a segurar a própria cabeça e o próprio corpinho, ficam “durinhos”, aprendem a chupar o dedo e logo depois a colocar qualquer coisa em seu alcance na boca. Depois aprendem a rir, gargalhar, brincar, engatinhar, andar (na verdade antes eles aprendem a correr), falar… E assim por diante, com escadas, obstáculos, bicicletas, brincadeiras, etc.

Como criança aprendem a ler, escrever, brincar e fazer atividades na escolinha. E aí é que está o grande X da questão: começam a se relacionar! A dividir, conversar, brincar, brigar e cuidar. Aprendem a ser solidários ou não, a serem bons ou não, observam e seguem exemplos.

Na adolescência tudo vira de cabeça pra baixo, tudo que se quer é ser adulto e fazer 18 anos, mas ao mesmo tempo tudo que fazemos é agir como crianças! Todas as descobertas, novos mundos e todas, absolutamente todas as possibilidades! Os amigos são tudo para nós, os pais são nossas barreiras e os amores (em sua grande maioria, platônicos – que hoje sabemos ser paixonites), são mais importantes que tudo no mundo.

Não sei se existe uma época em que aprendemos mais, mas com certeza – pelo menos pra mim -, a adolescência foi a época em que aprendi menos! Só comecei a aprender a viver mesmo na vida adulta, e não pense que terminei de aprender.

Aí é que muda tudo mesmo. Quando viramos “adultos”, parece que viramos o Homem Aranha de repente: “With great power comes great responsability”. Ou, “com grande poder, vêm grandes responsabilidades”, algo assim traduzido ao pé da letra.

Aparecem todas as responsabilidades do mundo, que nunca nem pensamos que existiam! Durante a faculdade é claro que não estamos muito preocupados com elas. Afinal, se der merda, o papai ou a mamãe podem me ajudar, me resgatar, pagar pra mim ou algo do tipo. Aí você termina a faculdade com méritos – ou não, ganha um anel ou um carro, ou no meu caso um: “Parabéns, já paguei toda sua faculdade e esse foi seu presente de formatura” (o que eu acho mais do que justo!) e se joga no mundo corporativo de procurar emprego, enviar currículos, pedir indicações, entrevistas, dinâmicas, períodos de experiência, até que finalmente, aparece o seu primeiro emprego!!! EEEE, todos comemoram! Só que não, né? Tirando algumas pessoas que têm MUITA sorte, o primeiro emprego é péssimo, você trabalha demais e ganha de menos e aprende na marra, porque ninguém tem paciência de ensinar o “novato”, que acaba se ferrando e aprendendo sozinho.

Enquanto encaramos a vida de verdade lá fora, vamos aprendendo milhões de coisas, macetes, jeitinhos brasileiros, aprendemos a falar “não” e muitas vezes esquecemos como se faz para dizer “sim”. Todo dia é um aprendizado diferente e temos que agradecer por estar vivos e aqui novamente, com certeza poderia ser muito pior.

Mas com todos esses aprendizados da vida toda, criamos vícios quase impossíveis de deixar pra trás como pequenas mentiras, esquecer de dar bom dia a alguns colegas de trabalho ou simplesmente ignorar uma grávida em pé no metrô simplesmente porque você está sentado no assento não preferencial.

Há algum tempo conheci alguém que me ensinou que esse tipo de coisa é muito importante sim, principalmente a história da mentira. Pequena mentira ou grande mentira, aprendi que tudo é mentira do mesmo jeito e, igual a qualquer mentira, tem perns curtas e vai acabar machucando alguém, etc etc etc. Foi aí que eu me toquei: eu preciso aprender a falar a verdade com coisas pequenas, ou preciso desaprender a mentir?

Porque quando se é criança por exemplo, não tem problema algum em avisar a quem for preciso, numa sala cheia de gente, que se quer fazer cocô. Mesmo porque se ela não avisar ficará esquecida no banheiro por um bom tempo, até gritar: “mãããe, acabei!!!”.

Então por que hoje em dia é tão difícil ser sincero? Por que mascarar tudo isso com “preciso ir ao banheiro, com licença.”? Tá, tudo bem que tem a questão da etiqueta e tudo o mais, mas isso acaba sendo uma pequena mentirinha. Qual o motivo de termos tanta dificuldade em perdermos a mania de fazer certas coisas na vida?

Desaprender a mentir é uma delas, como tantas outras! Na vida adulta, passamos a precisar desaprender mais do que aprender, eu acredito. Desaprender a achar sua mãe uma chata, desaprender a falar pra aquele amigo que tem compromisso, quando na verdade você quer mesmo é ficar em casa com seu edredom e seu chocolate quente e, qual o problema nisso? Desaprender a ficar longe da sua avó, porque ela não vai estar aqui por muito tempo, desaprender a ser egoísta, desaprender a falar tantos “não” e desaprender a machucas as pessoas com coisas que parecem pequenas. Aliás acho que essa deveria ser a palavra da vez. Sim, é uma palavra, eu chequei no dicionário e sua definição exata é:

DESAPRENDER, v. t. Esquecer (aquilo que se sabia).

foto

Ou seja, tem muita gente aí precisando esquecer aquilo que se sabia. Se você aprendeu, pode esquecer, certo? Claro, mas na prática é uma das coisas mais difíceis que tive que aprender. Aprender a desaprender.

Sim, é tão complicado assim. Mas é uma coisa que você leva pra vida toda e, não é o que estamos procurando mesmo? Ser um ser humano melhor? Pelo menos a maioria (espero) de nós está. E se queremos ou precisamos nos livrar de defeitos, precisamos desaprender!

Desaprender a conviver com alguém que você perdeu por algum motivo ou desaprender a estar com alguém. Desaprender a ter alguém ou muitos “alguéns” na sua vida. Desaprender a rotina, desaprender o ódio por alguém, desaprender o amor (esse nunca dá certo, não tente). Desaprender sua vida com o você a conhece por um objetivo em comum.

Poderia citar milhares de exemplos, mas esse texto ficaria absurdamente longo. Quem sabe um dia não escrevo um livro? Sobre essas coisas que nos fazem pensar, principalmente em tempos de crise. Quem sabe assim não decido se amo ou odeio ser adulta?…

No momento estou odiando…

Essa crônica foi escrita ouvindo (voltei à adolescência por um momento, e daí?):

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2 comentários sobre “Crônica: Aprender ou “desaprender”?

  1. Que texto lindo!!! Tenho a mesma experiência que vc, não aprendi nada na adolescência, o fase sem propósito (rs).
    Citação nerd mais linda e que eu uso muito!
    Amei. bjos

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